Meio Fim 


Se houvesse uma palavra, ou uma ideia, sobre a qual todos estivéssemos de acordo, essa palavra-ideia deixaria de existir. Por sua onipresença, morreria.

A linguagem, o mundo das palavras e das ideias, se baseia na cópia e na repetição de modelos, no consenso da aceitação dos significados e também na aceitação calada de suas falhas. Em linguística, essa repetição se chama iterabilidade, e nos fala da capacidade e da necessidade de um signo de repetir-se para existir e construir significado. Um gesto, um meme, uma palavra, precisa se reconstruir e se recontextualizar de maneira contínua para não perder seu sentido, um sentido que nunca chega a construir-se por completo e, portanto, nunca é corretamente transportado.

Se houvesse uma palavra, ou uma ideia, sobre a qual todos estivéssemos de acordo, essa palavra-ideia deixaria de existir. Por nossa vontade, morreria.

Entre os dois lados de uma conversa, sempre há um abismo potencial, o espaço onde recaem todas as coisas que não chegaram lá. Do meu discurso ao seu ouvido, do seu poema aos meus olhos, a perda é fundamental, e aquilo que a palavra perde até chegar no outro é o que a mantém viva. O fracasso é a condição para a existência de um símbolo: é sua força motriz e sua lei de surgimento. Esse espaço – do desentendido, do malentendido, do perdido, do não enxergado – estabelece as distâncias e, com isso, nos impele a continuar tentando aproximar.

Se houvesse uma palavra, ou uma ideia, sobre a qual todos estivéssemos de acordo, essa palavra-ideia deixaria de existir. Por simetria nossa, morreria.

Ao escrever este texto, registro aquilo que desejo fazer entender. Registro aquilo que desejo. Registro desejo. Quem se encarrega, então, de registrar a perda não desejada, de eternizá-la? Pois o espaço da perda, ignorado, não é um espaço vazio, mas terra fértil e vasta, espaço de outros encontros.